quarta-feira , agosto 16 2017
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TEORIA DA CEGUEIRA deliberada aplicada a PASTORAL

Neste mês de outubro procurarei partir de uma reflexão jurídica para produzir uma reflexão pastoral. No mundo jurídico internacional apareceu uma teoria muito interessante, chamada Teoria da Cegueira Deliberada, mas a mesma teoria tem muitos nomes, tais como “Willful Blindness Doctrine” (Doutrina da Cegueira Intencional), “Ostrich Instructions” (Instruções de Avestruz), “Conscious Avoidance Doctrine” (Doutrina do Ato de Ignorância Consciente), “Teoria das Instruções da Avestruz”, entre outros.

Esta teoria segundo a consultora Jurídica Yngrid Hellen Gonçalves teria como ação jurídica aquela de uma pessoa procurar evitar o conhecimento da origem ilícita dos valores que estão envolvidos na transação comercial, estaria esta pessoa incorrendo no dolo eventual, onde prevê o resultado lesivo de sua conduta, mas não se importa com este resultado.

Segundo esta teoria, uma pessoa poderia ser condenada por fazer o esforço para não se envolver em um delito que está acontecendo diante de seus olhos, preferiu fazer de conta que não estava vendo. Daí vem um dos nomes desta teoria: Teoria das Instruções de Avestruz.

A partir desta teoria acredito ser possível fazer uma leitura muito específica de problemas reais de nossas paróquias. Muitos de nossos paroquianos se portam como se não tivessem responsabilidade com os problemas da paróquia e porque não dizer da Diocese. Recordemos por exemplo os paroquianos que reclamam que o banco que senta aos domingos está quebrado, mas nunca ajudou a paróquia com Dízimos ou coletas.

A Igreja Católica, como as demais instituições tem fiéis muito envolvidos, mas a cada dia vamos percebendo o desafio de envolver novas lideranças. As pessoas reclamam da senhora que é ministra da Eucaristia nas quatro missas do domingo, mas quando o Padre solicita novas pessoas para ajudar todo mundo tem outro compromisso.

Assim podemos dizer que grande parcela dos fiéis da Igreja estão sofrendo de cegueira deliberada no campo da pastoral. Ou talvez estejam fazendo como as avestruzes que, diante do desafio, enfiam a cabeça no buraco e fazem de conta que não tem nada a ver com o problema. É fácil dizer que pertencemos a Igreja sem ser responsável por ela.
Aqui vale a pena analisar tantos problemas pelos quais passa nossa comunidade, nas quais a primeira ação de muitos é se fazer de cegos, ou talvez a não quererem se envolver com os problemas.

Como ecônomo de nossa Diocese tenho feito uma leitura muito particular da situação financeira de nossas paróquias. Na administração destas, os desafios pelos quais passa a paróquia aumenta a cada ano, é direito trabalhista para pagar, água, energia, telefone, manutenção, etc. Tudo isto muitas vezes sufoca o padre e as lideranças mais próximas à paróquia.

Por outro lado, vemos um movimento ao inverso em relação ao dízimo, a coleta e as doações, que a cada dia reduzem na proporção do aumento do número dos fiéis. Ou seja, os fiéis nas paróquias aumentam e não acompanha o aumento dos recursos.

Diante do problema financeiro de nossas Igrejas muitos dos fiéis continuam sofrendo de cegueira deliberada. Recordo por exemplo o caso de uma senhora que foi a paróquia, solicitar uma certidão de batismo e a secretária informou que a certidão custava dez reais. Esta senhora ficou brava e questionou: “como pode a Igreja cobrar por uma certidão?” Esta senhora com certeza pertencia ao grupo da Igreja que está sofrendo de cegueira deliberada.
Não podemos esquecer a aplicação do presente conceito em campo pastoral. Aqui podemos recordar aquela comunidade que sabe que a catequese está enfraquecendo e nada faz para resolver o problema.

Nos Estados Unidos a suprema corte já determinou que em campo jurídico a cegueira deliberada não escusa ninguém da culpa que tem por não ter se manifestado em tempo oportuno do erro, que podia ter ficado sabendo.
Assim acredito que na Igreja, também, muitos não poderão advogar em causa própria quando nossas paróquias enfraquecem e muitos fazem de conta que não enxergam o problema.

Com certeza agradecemos a Deus por tanto leigos que se envolvem com a vida da Igreja, mas hoje lançamos também um apelo àqueles que estão cegos diante dos desafios da comunidade. Rezemos para que um sopro revigorador do Espírito ajude alguns a enxergarem as necessidades da Igreja enquanto é tempo, antes que sejamos condenados por aquilo que decidimos, deliberadamente, não ver e não nos envolver.

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