quinta-feira , junho 22 2017
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A insegurança do Povo de Deus no Sudoeste Goiano

Ao longo destes quase cinco meses como Bispo da Diocese de Jataí, tenho viajado muito pelo vasto território da Diocese. Aos poucos vou conhecendo as diferenças de cada comunidade e os sinais positivos de cada cidade.
Em cada comunidade que visito tenho tirado um tempo para falar com as pessoas e, de quase todas as conversas, é possível perceber um tema recorrente: a falta de segurança.
Em uma das comunidades que visitei, antes da missa, alguém disse que na semana uma família havia sido assaltada, e, ao terminar a missa fui informado que um mercado também tinha sido assaltado. Isto em uma cidade pequena. Assim passo em cada semana ouvindo a dor e o lamento dos filhos e filhas de Deus desta amada Diocese.

Ao escutar tantas pessoas, percebo que há um clamor do povo do sudoeste goiano. Nosso povo já não suporta mais um nível de violência que destrói nossas cidades e jogam nossas famílias na escuridão do medo e da dor.
O aumento da violência se vai percebendo como causa da desorganização da sociedade. A falta de infra-estrutura das famílias e de apoio a programas que possam ajudar o menor, já nos primeiros dias de sua vida, levam a indigência famílias inteiras.
Outrossim, a má distribuição de renda no Brasil abre uma grave crise na sociedade. Hoje vemos muitos jovens no roubo por ver que outros têm, escandalosamente, mais do que eles em suas casas. É indicativo, pois cerca de 80% da população prisional está detida por crimes contra o patrimônio (e congênere) ou pequeno tráfico de drogas e são jovens, pobres, de periferias e negros.
Uma questão social, de profunda gravidade, é pouco explorada na sociedade: o tráfico de drogas, que aumenta cada dia mais e o que se percebe é um silêncio das autoridades para este assunto. Mas também é bom saber que segundo as estatísticas “o número de pessoas presas por tráfico mais do que triplicou entre 2005 e 2011, passando de 31.520 para 115.287”. Neste aspecto, segundo Maria Lúcia Karam (2009), a criminalização do comércio de drogas, longe de inibi-lo, carreia à sociedade o “subproduto” da violência: seja para enfrentar a repressão, seja para resolver conflitos de concorrência, os comerciantes de drogas têm na violência o meio necessário para garantir seus negócios.
Em várias cidades tenho escutado que a solução é abrir casas de detenção para os menores e cadeias para os adultos. Diante desta afirmação tive a oportunidade de ver um relatório do CNJ – Conselho Nacional de Justiça (2014) que afirma que o Brasil tem a terceira maior população carcerária do mundo, com 711.463 contando também com as pessoas presas em domicílio. Deste número, sem contar o Distrito Federal, o Estado de Goiás contava com população carcerária de 13.117 pessoas.
Devemos também recordar que, geralmente, nossos centros de detenção e nossas cadeias vão devolver à sociedade pessoas em situação pior do que quando entraram no regime penitenciário.

1º) Revisar a importância da família Nossas famílias precisam passar por uma ampla revisão. Pai e mãe precisam assumir novamente a sua função de autoridade e responsabilidade na educação dos filhos. Ajudemos os jovens a formar suas famílias no tempo certo e com o apoio da sociedade. Vale percorrer toda a exortação pós-sinodal do Papa Francisco “Alegria do Amor” (e você pode acessar: https://www.youtube.com/playlist?list=PLotYrxGR4ETky1OgScpp6-uWAotp-PBCz ) e com certeza despertá-lo-á para um extraordinário amor à família. 2º) Revisar os padrões de segurança pública A segurança pública foi feita para intimidar os cidadãos que não querem seguir a lei e os bons costumes. Em nossas cidades é visível o sucateamento do sistema de segurança pública. Há cidades que até a manutenção das viaturas policiais precisam ser feitas pela população, pois o poder público está em crise financeira. Sem um repensar da segurança pública, não seremos capazes de enfrentar a crise que vivemos na segurança. 3º) Revisar nosso sistema educacional Triste é a situação das escolas em nossa Diocese. Tenho percebido que nossas escolas, pelo menos em muitas delas, não são lugares onde os jovens ou qualquer adulto queiram ficar para aprender. A revisão do sistema educacional brasileiro é uma questão que não pode nem deve ser ignorada, mas tratada com toda seriedade que a temática exige. Se não conseguimos colocar os jovens na escola, com um sistema educacional que facilite o acesso e a permanência destes, não vamos melhorar nada na sociedade. 4º) Fortalecer a Pastoral Carcerária e criá-la onde não existe.

Necessitamos enfrentar o problema de que nossas cadeias e centros de detenção são lugares que não formam, e que em alguns casos pioram a vida das pessoas que por ali passam. Faz-se necessário saber que segundo CNJ, estatística acima, só no Estado de Goiás havia um déficit de 4.756 vagas, enquanto que em julho de 2014 a capacidade era apenas de 8.361 e no Brasil o déficit era de 354.244 vagas no sistema prisional.
Diante de uma análise criteriosa do sistema prisional, conclui-se que 43% da população prisional brasileira ainda não tem condenação definitiva. Daí muitas Organizações optaram por uma Agenda Nacional pelo Desencarceramento, em 2014.
Nossa comunidade católica pode ajudar a restaurar as pessoas que estão nas cadeias.Uma pastoral carcerária, que ajude no acompanhamento, formação e re-socialização do detento, pode ser o caminho para conter o problema da violência.
De forma geral, o problema da falta de segurança é um problema de todos nós, e não pode a comunidade católica ficar apática à discussão desta chaga em nossa sociedade.
Se pudéssemos reunir em nossas Igrejas as diversas lideranças de nossas cidades para discutir caminhos para solucionar o problema da crise na segurança pública e o aumento da criminalidade, nossas comunidades poderiam ajudar nossa sociedade a melhorar esta situação tão grave. Com o envolvimento e comprometimento de todos podemos enfrentar este problema.
Que Nossa Senhora Aparecida, Mãe e Padroeira do Brasil, que acolheu um prisioneiro sem vida nos seus braços, interceda por este povo do sudoeste goiano a amar sempre mais a todos e a proteger a vida.

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